Do cais do porto carioca às telas do mundo: a história social do samba é uma das narrativas mais potentes e menos contadas do Brasil. Nascida nos terreiros das “tias baianas” da Pequena África, criminalizada pela polícia da Primeira República, apropriada pelo Estado Novo como bandeira nacional e hoje reconhecida pela UNESCO como patrimônio imaterial da humanidade, o samba percorreu um caminho de resistência, genialidade e transformação social que poucos sabem. Neste artigo, você vai entender quem criou o samba, por que ele foi perseguido, como conquistou o rádio e os morros, e por que, mais de cem anos depois, ele ainda pulsa como o coração do Brasil.
Criminalizado, perseguido e marginalizado durante décadas, o samba nasceu da diáspora africana nas vielas do Rio de Janeiro e venceu o preconceito para se tornar o símbolo musical mais poderoso já produzido no Brasil. Entender a história social do samba é entender o próprio Brasil, suas tensões raciais, suas contradições e sua extraordinária capacidade de criar beleza a partir da dor.
Baseado em: LOPES, Nei; SIMAS, Luiz Antonio. Dicionário da História Social do Samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. | Categoria: Cultura & História

O que é a História Social do Samba?
Antes de ser gênero musical reconhecido mundialmente, antes de ser a trilha sonora do Carnaval e antes de ser declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, o samba foi simplesmente a voz de um povo que não tinha outra forma de existir publicamente sem ser perseguido. A história social do samba não começa numa gravadora nem num estúdio de rádio. Ela começa nos navios negreiros que cruzaram o Atlântico durante quatro séculos de tráfico escravizado.
Essa é a tese central da obra que orienta este artigo: o Dicionário da História Social do Samba, escrito pelos pesquisadores Nei Lopes e Luiz Antonio Simas e publicado pela Editora Civilização Brasileira em 2015. Para os autores, compreender o samba exige ir muito além de sua forma musical. É necessário mergulhar nas condições sociais, raciais e políticas que produziram e moldaram esse fenômeno cultural ao longo do tempo.
Lopes e Simas definem o samba como “o principal fenômeno cultural brasileiro surgido no século XX” e lamentam que, apesar disso, a bibliografia acadêmica sobre o gênero seja ainda “relativamente escassa”. Este artigo pretende preencher parte dessa lacuna, reconstruindo a trajetória do samba desde suas raízes africanas até sua consagração como símbolo da identidade nacional.
Pontos-chave desta seção
- O samba é considerado o principal fenômeno cultural brasileiro do século XX
- Suas origens estão diretamente ligadas à diáspora africana e ao tráfico escravizado
- Entender o samba é entender as relações raciais e sociais do Brasil
- A história social do samba ultrapassa a dimensão musical e envolve política, religião e resistência
Raízes Africanas: O Samba Antes do Samba
Da África ao Brasil: o tráfico que trouxe o ritmo

O tráfico atlântico de escravos trouxe da África para o Brasil, entre os séculos XVI e XIX, cerca de 5 milhões de pessoas, provenientes de diversas regiões do continente. A maior parte delas era de origem banto, embarcada principalmente em portos como Cabinda, Luanda e Benguela, no Centro-Oeste africano. Segundo Lopes e Simas, foi exatamente desses povos que se originou aquilo que hoje chamamos de samba.
A palavra “samba” tem raízes nas línguas bantas africanas, onde termos como semba e sàmba se referem a danças e celebrações comunitárias. No Brasil colonial, o termo era empregado de forma ampla para designar qualquer manifestação de origem africana que reunisse dança, em especial a umbigada, canto e instrumentos de percussão. Nessa época, “batuque” e “samba” eram palavras praticamente intercambiáveis.
O Samba de Roda Baiano: o elo entre a África e o Rio
A forma musical que mais diretamente alimentou o samba urbano carioca foi o samba de roda, nascido no Recôncavo Baiano, provavelmente ao longo do século XIX. Em suas rodas de dança e canto coletivo, os africanos escravizados e seus descendentes preservavam elementos de línguas, ritmos e cosmologias do continente de origem — muitas vezes em código, para driblar a vigilância dos senhores e da polícia.
O samba de roda tinha ainda uma relação íntima com as práticas rituais dos cultos aos orixás. Ritmos sagrados conviviam com ritmos profanos, e essa fusão entre religiosidade africana e expressão musical popular seria uma marca permanente do samba ao longo de toda a sua história.
“Da Bahia, das fazendas do Sudeste, do agreste nordestino, de origens diversas, esses refrões ou coros vinham e eram difundidos principalmente a partir de comunidades como a da ‘Pequena África’ carioca.”— Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, Dicionário da História Social do Samba (2015)
As raízes do samba em números
- Cerca de 5 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil como escravizados entre os séculos XVI e XIX
- Os povos bantos do Centro-Oeste africano corresponderam a aproximadamente metade desse total
- O samba de roda baiano foi reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2005
- A palavra “samba” aparece registrada na língua portuguesa ao menos desde o século XIX
A Pequena África Carioca: O Berço do Samba Urbano

A migração baiana e a formação da Pequena África
Com a abolição da escravidão em 1888 e a Proclamação da República em 1889, uma grande onda migratória de pessoas negras se deslocou para o Rio de Janeiro em busca de sobrevivência. Muitos vieram da Bahia, especialmente de Salvador e do Recôncavo, trazendo consigo seus ritmos, saberes, cultos e tradições. Eles se instalaram nos arredores do cais do porto, em bairros como Saúde, Gamboa e Cidade Nova, região que ficou conhecida como Pequena África, denominação cunhada pelo compositor Heitor dos Prazeres.
Ali, nas casas das chamadas “tias baianas”, mulheres negras mais velhas que exerciam liderança na organização da família, da religião e da comunidade, aconteciam os encontros que dariam origem ao samba urbano carioca. A mais famosa delas foi Tia Ciata, cujo nome de batismo era Hilária Batista de Alamida, uma ialorixá que recebia em sua residência na Praça Onze músicos, compositores, artistas e intelectuais. Em sua casa, segundo a tradição oral da época, teria sido composta “Pelo Telefone”, a primeira gravação registrada como samba, em 1916.
A criminalização do samba e a resistência dos sambistas
O Brasil da Primeira República era um país oficialmente comprometido com o ideal eugenista do “branqueamento” da população. Nesse contexto, qualquer manifestação cultural de matriz africana era vista com suspeita pelas autoridades. O samba era frequentemente associado à “vadiagem”, à criminalidade e à imoralidade. As rodas de samba eram dissolvidas pela polícia, instrumentos eram confiscados, e os sambistas eram presos sob acusações vagas de perturbação da ordem.
A resistência dos sambistas assumiu formas criativas. Conta-se que o pandeiro era escondido embaixo da roupa para escapar da repressão policial, que os encontros musicais eram realizados às escondidas nos fundos das casas das tias baianas, e que a própria estrutura comunitária das rodas funcionava como uma rede de proteção mútua.
A criminalização do samba — fatos históricos

- O Código Penal de 1890 criminalizava a “capoeiragem” e a “vadiagem”, usados para reprimir manifestações negras
- Instrumentos de percussão eram regularmente confiscados pela polícia nas redondezas da Praça Onze
- As rodas de samba precisavam da proteção de figuras políticas para acontecer com relativa segurança
- Alguns sambistas carregavam “carta de recomendação” de delegados para poder circular pela cidade
O Estácio e a Invenção do Samba Moderno
Se a Praça Onze e a Pequena África foram o berço, o bairro do Estácio de Sá foi o laboratório onde o samba ganhou sua forma definitiva. No final da década de 1920, um grupo de compositores jovens e ousados, entre eles Ismael Silva, Bide, Armando Marçal e Nilton Bastos, promoveu uma verdadeira revolução musical. Eles criaram um samba com andamento mais lento, com síncope mais elaborada e com espaço para a percussão coletiva da batucada. Era um samba feito para desfilar pelas ruas.
Essa inovação não aconteceu por acaso. O Estácio era um bairro encravado entre o Morro de São Carlos e o Mangue, zona de moradia de trabalhadores pobres, negros e mestiços, frequentemente vigiados pela polícia. Como aponta o pesquisador João Máximo no SciELO, o “epicentro” da renovação do samba urbano foi justamente esse reduto de “gente pobre, com grande contingente de pretos e mulatos”, que segundo a lógica dominante da época era “prato cheio para as associações que normalmente se estabelecem entre classes pobres e classes perigosas”.
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1916 – Donga declara na Biblioteca Nacional a autoria de “Pelo Telefone”, tipificada como “samba carnavalesco”, marco inaugural do gênero na indústria fonográfica.
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1920s – A Pequena África se consolida como polo cultural. Tia Ciata e outras “tias baianas” abrigam as rodas de samba e os terreiros de candomblé que alimentam o nascente gênero.
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1928 – Compositores do Estácio criam o “samba sincopado”, com andamento mais lento e batucada mais percussiva, adequado para os desfiles carnavalescos que se organizavam.
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1928 – É fundada a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba do Brasil, no bairro do Estácio.
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1930s – Com o Estado Novo de Getúlio Vargas, o samba passa a ser incentivado como símbolo da identidade nacional, porém com tentativas de apagar suas raízes africanas e enaltecer o trabalhador.
As Escolas de Samba: Quando a Periferia Organizou a Festa

As Escolas de Samba Quando a Periferia Organizou a FestaA criação das escolas de samba foi um dos fenômenos sociais mais importantes da história cultural brasileira. Surgidas no final dos anos 1920, inicialmente no Estácio e logo em morros e periferias de toda a cidade do Rio de Janeiro, as escolas de samba representaram muito mais do que agremiações carnavalescas. Elas foram, e ainda são, centros comunitários, redes de solidariedade, espaços de preservação da memória afro-brasileira e poderosos instrumentos de afirmação identitária.
Segundo Lopes e Simas, os primeiros “terreiros” das escolas de samba, o termo “quadra” viria depois, funcionavam segundo regimentos tácitos semelhantes aos de organizações comunitárias. Ali se decidia o enredo do carnaval, se escolhia o samba-enredo, se confeccionavam as fantasias, se ensaiavam os instrumentos da bateria. Era uma democracia participativa nascida da necessidade de sobrevivência coletiva.
A estrutura das escolas de samba: um dicionário em movimento
O Dicionário da História Social do Samba dedica verbetes inteiros a cada elemento constitutivo das escolas de samba, demonstrando que sua complexidade organizacional é em si mesma um fenômeno social notável. O abre-alas, elemento identificador que vem à frente da agremiação durante o desfile , era originalmente um quadro singelo com saudações “ao povo e à imprensa” e o “pedido de passagem”. Com o tempo, tornou-se alegoria artística de alto investimento e sofisticação.

Elementos que compõem uma escola de samba
- Abre-alas: cartaz ou alegoria que abre o desfile, identificando a escola
- Bateria: conjunto de instrumentos de percussão, o “coração” da escola
- Comissão de frente: grupo que abre o desfile com performance artística
- Ala das baianas: homenagem às tias baianas, origem do samba urbano
- Samba-enredo: composição que narra o tema escolhido para o carnaval
- Grupo de Acesso: divisão competitiva que organiza a hierarquia entre escolas
O Rádio, Getúlio Vargas e a Apropriação Nacional do Samba
A chegada do rádio comercial ao Brasil nos anos 1930, combinada com o projeto político de Getúlio Vargas de construir uma identidade nacional unificada, criou as condições para que o samba saísse definitivamente dos morros e das periferias e chegasse às casas de todo o país. Contudo, esse processo de consagração nacional foi também um processo de apropriação e, em certa medida, de deformação.
Como analisam Lopes e Simas, o samba urbano carioca foi “percebido, na década de 1930, em todo o seu potencial motivacional e aglutinador” e passou a ser utilizado como “trilha sonora preferencial das ações do governo”. O Estado Novo incentivou o samba, mas ao mesmo tempo tentou moldá-lo: valorizava os sambas que exaltavam o trabalho e a brasilidade, e reprimia os que falavam de malandragem, boemia e resistência. Compositores como Noel Rosa e Wilson Batista protagonizaram debates públicos exatamente sobre esse ponto, a autenticidade do sambista versus as demandas do Estado.
Paralelamente, o rádio democratizou o acesso ao samba, mas também o tornou mercadoria. A indústria fonográfica, com suas bases no Rio de Janeiro, avançava tecnologicamente e conquistava consumidores de classes médias e altas. O samba, antes exclusivo das classes populares e das comunidades negras, passou a ser consumido por toda a sociedade, em muitos casos, sem o devido reconhecimento de seus criadores originais.
Por força de sua relação com a música carnavalesca de cortejo, o samba foi, nas décadas seguintes, assumindo características mais definidas. Assim, aos poucos ganhou em cadência rítmica, melodia, harmonia e letra, bem como em diversidade estilística. — Nei Lopes e Luiz Antonio Simas
Samba e Religiosidade: África Viva no Coração do Ritmo
Um dos aspectos mais singulares, e frequentemente negligenciados, da história social do samba é sua relação íntima com as religiões de matriz africana. O candomblé, a umbanda e as práticas rituais banto-angolanas não apenas influenciaram o samba: elas são, em muitos sentidos, sua origem sagrada.
Os cânticos tradicionais dos primeiros sambistas continham resíduos de línguas nativas africanas, congo-angolanas e jeje-nagô, estropiados pelo tempo, mas preservados como marcas de africanidade no cancioneiro popular. Em 1921, a “chula baiana” Pemberê, de Eduardo Souto e João da Praia, trazia essa herança sonora. Dois anos depois, Sinhô lançava “Macumba Jeje”, registrada como samba de carnaval.
Na década de 1960, a figura de Clementina de Jesus representou o que o pesquisador Ary Vasconcellos chamou de “elo perdido” entre a ancestralidade musical africana e o samba urbano. Descoberta para a vida artística já sexagenária, Clementina interpretava jongos, lundus, sambas da tradição rural e cânticos rituais recriados, conectando o Brasil contemporâneo a suas raízes mais profundas.
Em 1966, Baden Powell e Vinicius de Moraes lançavam os afrossambas, composições como “Canto de Ossanha” e outros pontos de orixás adaptados à linguagem da MPB, trazendo essa herança sagrada para o mainstream da música popular brasileira.
O Samba e a Questão Racial: Resistência que Nunca Terminou

Não é possível contar a história social do samba sem enfrentar diretamente a questão racial. O samba foi criado por pessoas negras, desenvolvido em comunidades negras, perseguido porque era negro e depois apropriado, muitas vezes sem justa compensação, por uma indústria cultural majoritariamente branca.
Lopes e Simas citam um episódio revelador narrado pela antropóloga norte-americana Ruth Landes: em 1939, um alto ministro do governo Vargas teria dito a ela, ao saber de seus estudos sobre comunidades negras: “o nosso atraso político […] se explica perfeitamente pelo nosso sangue negro. Infelizmente. Por isso, estamos tentando expurgar esse sangue, construindo uma nação para todos, limpando a raça brasileira.” Essa era a visão de parte da elite brasileira exatamente no momento em que o samba era promovido como símbolo nacional.
A contradição é evidente e reveladora: o samba era valioso o suficiente para representar o Brasil no mundo, mas seus criadores eram considerados inferiores o suficiente para serem alvos de políticas eugenistas. Como observa o pesquisador do SciELO João Máximo, “até impor-se como ícone nacional, uma batalha, ora estridente, ora surda, teve que ser travada” pelo samba e por seus criadores.
Samba e racismo: pontos essenciais
- O samba foi criado em comunidades negras e perseguido pela polícia da Primeira República
- Compositores negros pioneiros, como Cartola e Nelson do Cavaquinho, viveram décadas de marginalização econômica
- O processo de “branqueamento” do samba começou quando cantores e compositores brancos passaram a gravar o gênero nos anos 1930
- A história social do samba é inseparável da história do racismo estrutural brasileiro
- O reconhecimento tardio de figuras como Clementina de Jesus ilustra como a indústria valorizava o samba sem valorizar seus criadores negros
A Diversidade do Samba: Um Gênero, Múltiplas Faces
Os gêneros e subgêneros do samba
Um dos grandes méritos do Dicionário da História Social do Samba de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas é mostrar que o samba nunca foi uma coisa só. Ao longo de mais de um século de história, o gênero se ramificou em dezenas de vertentes, cada uma com características próprias, contextos históricos específicos e comunidades de praticantes distintas.
Principais vertentes e subgêneros do samba
- Samba de roda: forma original do Recôncavo Baiano, dançado em roda com umbigada; Patrimônio da UNESCO desde 2005
- Samba-enredo: composição temática das escolas de samba, criada para os desfiles carnavalescos
- Samba de breque: estilo com interrupções dramáticas na música para o cantor falar ou gritar expressões cômicas
- Partido-alto: vertente baseada em improviso, com coro fixo e solista que improvisa; considerada a forma mais tradicional do samba rural fluminense
- Samba-canção: modalidade mais lenta e melodiosa, de influência da música romântica, predominante nos anos 1940-50
- Pagode: vertente surgida nos anos 1970-80 nas rodas de samba das periferias, com instrumentação diferenciada (banjo, tantan, repique de mão)
- Afrossamba: fusão de samba com elementos das religiões afro-brasileiras, popularizada por Baden Powell e Vinicius de Moraes
- Samba sincopado: criação do Estácio, marcado pela síncope mais elaborada e ritmo voltado ao desfile
O Samba no Século XXI: Patrimônio, Resistência e Renovação
Nos últimos anos do século XX e nas primeiras décadas do século XXI, o samba enfrentou novos desafios. A ascensão do funk e do hip-hop como expressões das periferias urbanas criou uma disputa de espaço que, na visão de Lopes e Simas, repete, em chave contemporânea, a mesma tensão que o samba viveu em seus primeiros anos: uma expressão cultural nascida nas margens da sociedade buscando reconhecimento e legitimidade.
Ao mesmo tempo, o samba demonstrou sua capacidade única de renovação e resistência. Artistas como Mart’nália, Teresa Cristina, Diogo Nogueira e inúmeros grupos de jovens compositores têm mantido viva a tradição, atualizando as linguagens sem perder a conexão com as raízes. As rodas de samba da Lapa, da Pedra do Sal e das quadras das grandes escolas continuam sendo espaços de sociabilidade, memória e criação coletiva.
Como alertava o escritor Eduardo Galeano ainda no final do século XX e é citado por Lopes e Simas, a tecnologia coloca a música ao alcance de todos, mas os donos do mercado já começam a impor a “ditadura da música única”. O samba, com sua história de resistência a pressões muito maiores do que essa, certamente tem fôlego para enfrentar mais esse desafio.
Reconhecimentos e patrimônios

O samba de roda do Recôncavo Baiano foi proclamado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2005. Em 2008, o Registro do Samba Carioca como patrimônio imaterial brasileiro foi realizado pelo IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Esses reconhecimentos, tardios mas significativos, representam um acerto de contas, ainda que parcial, com a história de um povo que criou uma das expressões artísticas mais originais do planeta.
O samba hoje: dados e fatos
- O Carnaval do Rio de Janeiro, impulsionado pelas escolas de samba, atrai mais de 1 milhão de turistas por ano
- O Dia Nacional do Samba é comemorado em 2 de dezembro
- O samba de roda baiano é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2005
- As escolas de samba movimentam uma cadeia econômica de milhões de reais por ano só na produção de fantasias e alegorias
- O samba está presente em mais de 100 países do mundo, com comunidades ativas de praticantes e admiradores
Por Que Estudar a História Social do Samba?
Em sua introdução, Nei Lopes e Luiz Antonio Simas fazem uma observação que deveria ser lida em todas as escolas do Brasil: o samba “deveria ser matéria regular nas nossas escolas, assunto recorrente em nossa academia, por corresponder ao que o país produziu e produz de melhor, e de mais original, entre suas criações literomusicais”. Estudar o samba não é apenas apreciar um estilo musical. É estudar o Brasil.
É estudar como uma população que chegou ao país acorrentada e destituída de tudo conseguiu criar, a partir do zero, um dos patrimônios culturais mais ricos e originais da história da humanidade. É estudar como a opressão pode ser transformada em beleza. É estudar resistência, criatividade e identidade.
E é, acima de tudo, é uma forma de reconhecer, com a seriedade e o respeito que merecem, as mulheres e os homens negros que, perseguidos pela polícia, marginalizados pela elite e ignorados pela academia, criaram o coração musical do Brasil.
📚 Referências Bibliográficas e Fontes
- LOPES, Nei; SIMAS, Luiz Antonio. Dicionário da História Social do Samba. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2015. ISBN 978-85-200-1235-2.
- TINHORÃO, J. R. Pequena História da Música Popular Brasileira. São Paulo: Art Editora, 1991.
- LANDES, Ruth. A Cidade das Mulheres. 1ª ed. em português, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
- RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
- MÁXIMO, João. “A invenção do Brasil como terra do samba: os sambistas e sua afirmação social.” SciELO — História. Disponível em: scielo.br
- Wikipedia. “Samba.” Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Samba
- História do Mundo. “História do samba: origem e características.” Disponível em: historiadomundo.com.br
- Nossa Causa. “Você conhece a origem do samba?” Disponível em: nossacausa.com
- Sambando.com. “História do Samba: origens e evolução.” Disponível em: sambando.com
- Revista África e Africanidades. “Um breve histórico do samba e do carnaval.” Ano 7, n.19, abr. 2015. Disponível em: africaeafricanidades.com.br
- Jornal A Cena. “Samba: a história do ritmo que nasceu nos morros e venceu o preconceito.” Fev. 2026. Disponível em: jornalacena.com.br







