De um quintal em Ramos ao coração da nação, a trajetória do grupo que inventou o pagode e transformou para sempre a musicalidade do Brasil.
Em um subúrbio do Rio de Janeiro, no final dos anos 1970, um grupo de sambistas reunidos no bloco carnavalesco Cacique de Ramos inventou novos instrumentos, rompeu convenções rítmicas e criou uma sonoridade que o Brasil inteiro logo cantaria. Com o banjo afinado como cavaquinho, o tantã e o repique de mão, o Grupo Fundo de Quintal não apenas lançou o pagode ao mundo, mas redefiniu o próprio conceito de samba, tornando-se o grupo mais premiado e influente da história do gênero. Esta é a história de resistência, criatividade e identidade cultural que ecoa por mais de quatro décadas.

Biografia Fundo de Quintal: Das Raízes do Cacique de Ramos ao Palco Nacional
A história do Fundo de Quintal começa antes mesmo do próprio grupo. Começa em 1961, quando três amigos do subúrbio carioca, Bira Presidente, seu irmão Ubirany e Sereno, fundaram o bloco carnavalesco Cacique de Ramos no bairro de Olaria. A agremiação surgiu de raízes simples: partidas de futebol e rodas de samba no quintal das famílias, momentos de confraternização que tinham o ritmo como fio condutor. Eram homens negros, trabalhadores, ligados à escola de samba Imperatriz Leopoldinense, que encontravam no samba uma forma de pertencimento e resistência cotidiana.
Os Fundadores e a Formação Original
No decorrer dos anos 1970, as rodas de samba do Cacique de Ramos foram ganhando força e atraindo novos talentos. Almir Guineto, com seu banjo reformulado para soar como cavaquinho, Jorge Aragão no violão, Sombrinha no violão de sete cordas e Neoci na percussão passaram a frequentar a sede. Junto com os fundadores Bira Presidente no pandeiro, Ubirany no repique de mão e Sereno no tantã, esse círculo de músicos formou o núcleo original que viria a se tornar o Grupo Fundo de Quintal.
A formação inaugural reunia sete sambistas, cada um trazendo uma contribuição particular ao conjunto sonoro que estava se gestando. Não havia, ainda, um nome oficial. O grupo era simplesmente “o samba do Cacique de Ramos”, tocado às quartas-feiras para um público crescente de amantes do ritmo que vinham de diferentes bairros do Rio para presenciar aquele fenômeno sutil, mas irresistível.
Formação Original do Grupo Fundo de Quintal (1980)
- Bira Presidente(pandeiro), um dos fundadores do Cacique de Ramos
- Ubirany(repique de mão), irmão de Bira e co-fundador do bloco
- Sereno(tantã), co-fundador e criador do instrumento
- Almir Guineto(banjo afinado como cavaquinho), inovador instrumental
- Jorge Aragão(violão), compositor e futuro solista de carreira brilhante
- Sombrinha(violão de sete cordas), musicalmente versátil
- Neoci(percussão), integrante da fase inicial
O Encontro com Beth Carvalho: a Madrinha que Abriu Portas
O ponto de virada na trajetória do grupo chegou na forma de uma visita inesperada. Em 1978, a cantora Beth Carvalho, já consagrada como uma das grandes vozes do samba brasileiro, compareceu a uma das rodas do Cacique de Ramos. Encantada com a sonoridade inovadora que brotava daquele quintal, ela soube imediatamente que estava diante de algo histórico. A intérprete convidou os sambistas para participar de seu novo trabalho de estúdio, “Pé no Chão”, lançado em 1978 e produzido por Rildo Hora.

“Havia um antes e um depois daquela noite no Cacique de Ramos. O samba não seria mais o mesmo.”
Sobre o impacto do grupo nas rodas de samba cariocas
O álbum “Pé no Chão” foi recebido com entusiasmo pela crítica e pelo público, consolidando a relevância daquele som de quintal num suporte fonográfico de circulação nacional. O sucesso da parceria com Beth Carvalho estimulou os sambistas a se unirem formalmente. Em 1980, a gravadora RGE lançou o primeiro disco oficial do conjunto, “Samba é no Fundo de Quintal”, que dava ao mundo o nome definitivo do grupo e o tornava, de uma vez por todas, parte da história da música brasileira.
Grupo Fundo de Quintal: A Anatomia de uma Revolução Musical
Para entender por que o Grupo Fundo de Quintal causou tanto impacto, é preciso compreender o contexto musical do Brasil nos anos 1970. O samba, expressão cultural de raiz africana e coração da identidade popular brasileira, enfrentava uma crise de identidade. A invasão da música norte-americana, o surgimento das equipes de baile funk e o distanciamento das novas gerações negras do samba tradicional criavam um vácuo inquietante.
Foi nesse cenário que o Fundo de Quintal emergiu como uma resposta orgânica e criativa. O grupo não recusou a modernidade, mas a filtrou através de sua própria história. Em vez de imitar sonoridades estrangeiras, os sambistas de Ramos buscaram dentro da própria tradição do samba os elementos que lhe devolvessem vida e frescor.
As Inovações que Definiram uma Época
A principal revolução do Grupo Fundo de Quintal foi instrumental. Almir Guineto adaptou o banjo, instrumento de origem norte-americana presente no choro brasileiro desde o início do século XX, para ter a afinação do cavaquinho. O resultado foi um timbre inusitado, brilhante e percussivo, que se encaixava no samba com uma precisão surpreendente. O banjo de Guineto tornou-se uma assinatura sonora do grupo, instantaneamente reconhecível.
Sereno, por sua vez, foi o criador do tantã, um instrumento de percussão de formato cilíndrico, com uma membrana de couro percutida com a mão, que oferecia um grave quente e suave, diferente do surdo tradicional. Ubirany desenvolveu o repique de mão, uma evolução do repique convencional que permitia ser tocado sem baquetas, apenas com os dedos e a palma da mão, com leveza e agilidade. Também se popularizou o repique de anel, variação que ampliava as possibilidades rítmicas do percussionista.
Essas três inovações, o banjo cavaquinhado, o tantã e o repique de mão, mudaram a equação sonora do samba. A formação instrumental já não se baseava mais apenas na tradicional combinação de cavaquinho, violão e pandeiro. Havia agora uma textura nova, mais intimista, mais fluida e ao mesmo tempo mais percussiva, que convidava ao movimento e à participação. Era o pagode nascendo.

A Popularização do Termo “Pagode”
O termo “pagode” não foi inventado pelo Fundo de Quintal, pois ele já existia no vocabulário do samba para designar festas e reuniões informais de sambistas. O que o grupo fez foi dar a esse termo uma identidade musical precisa e reconhecível. Com o sucesso das rodas do Cacique de Ramos e, posteriormente, dos discos do grupo, “pagode” passou a designar um subgênero do samba caracterizado pela instrumentação inovadora, pelo clima intimista de roda e pela valorização da melodia e da letra no cotidiano popular.
A Enciclopédia Itaú Cultural descreve o fenômeno com precisão: o Fundo de Quintal contribuiu para a transformação do samba nos anos 1980 com inovações que foram experimentadas nas rodas do bloco carnavalesco Cacique de Ramos e consagradas nos discos. O grupo criou um estilo em que a formação instrumental já não se baseava na combinação tradicional, inaugurando o que a indústria fonográfica passaria a chamar de pagode.
Samba Fundo de Quintal: A Discografia que Construiu um Legado
Após o álbum de estreia em 1980, o Grupo Fundo de Quintal atravessou um período de transição. Em 1981, Almir Guineto e Jorge Aragão deixaram o grupo para seguir carreiras solo, levando consigo parte da identidade musical da formação original. Neoci também saiu, deixando uma lacuna que precisaria ser preenchida com novos talentos.
A resposta do grupo foi convidar Arlindo Cruz, um jovem e talentoso sambista que traria nova energia vocal e compositiva ao conjunto, e Walter Sete Cordas, violonista de excepcional musicalidade. A nova formação mostrou uma capacidade de renovação que seria uma das marcas mais duradouras do Fundo de Quintal: o grupo sabia mudar sem perder sua essência.
Os Álbuns que Definiram uma Geração
Entre 1983 e 1990, o Grupo Fundo de Quintal gravou sete álbuns de estúdio e um ao vivo, consolidando um dos períodos mais férteis de sua história. O LP “Nos Pagodes da Vida” (1983) marcou a chegada da nova formação com Arlindo Cruz e estabeleceu o ritmo de trabalho intenso que caracterizaria a década. O grupo apresentava composições de parceiros do círculo do Cacique de Ramos, como Luiz Carlos da Vila, Beto sem Braço, Nei Lopes e Wilson Moreira, além de composições próprias dos integrantes.
“Divina Luz” (1985) trouxe uma maturidade musical que consolidou o estilo do grupo, com letras que combinavam lirismo sentimental com o cotidiano do subúrbio carioca. Mas foi “O Mapa da Mina” (1986) que representou o ápice comercial da primeira grande fase do grupo. O álbum vendeu 250 mil cópias, garantindo ao Fundo de Quintal seu primeiro disco de platina e provando que o pagode havia se tornado um fenômeno de massa sem abrir mão de sua autenticidade.
Álbuns de Destaque na Discografia
- “Samba é no Fundo de Quintal” (1980), álbum de estreia pela RGE
- “Nos Pagodes da Vida” (1983), consolidação da nova formação com Arlindo Cruz
- “Divina Luz” (1985), maturidade musical e lirismo afirmado
- “O Mapa da Mina” (1986), primeiro disco de platina com 250 mil cópias
- “Do Fundo do Nosso Quintal” (1987), com Beth Carvalho e Martinho da Vila
- “O Show Tem Que Continuar” (1988), expansão do repertório
- “Ciranda do Povo” (1989), com o hit “Miudinho, Meu Bem, Miudinho”
- “É Aí Que Quebra a Rocha” (1991), nova fase com o vocalista Mario Sérgio
Do Fundo do Nosso Quintal: O Encontro com Gigantes
O álbum de 1987, “Do Fundo do Nosso Quintal”, merece menção especial pela sua dimensão simbólica. O trabalho contou com a participação de Beth Carvalho na faixa “Pra Que Viver Assim”, de Sombrinha e Adilson Victor, reafirmando o vínculo afetivo e musical entre a madrinha e seus afilhados. Martinho da Vila participou de um medley de canções de origem angolana, “Mama Lala” e “Clube Marítimo Africano”, em um gesto de afirmação da matriz africana do samba que ressoou profundamente com o público.
O disco foi mais do que um álbum de pagode. Foi uma declaração de pertencimento cultural, uma afirmação das raízes africanas do samba numa época em que o Brasil começava a redescobrir e valorizar sua herança negra com mais consciência e orgulho.
As Melhores de Fundo de Quintal: As Músicas que Entraram para a História
Ao longo de quatro décadas de produção musical, o Grupo Fundo de Quintal construiu um repertório vasto e qualificado, repleto de canções que se tornaram clássicos instantâneos do samba e do pagode brasileiros. Selecionar “as melhores” é uma tarefa necessariamente subjetiva, mas algumas músicas se destacam por sua penetração cultural, pela profundidade de suas letras e pelo impacto que causaram na memória coletiva do país.

Clássicos Imortais do Repertório
“A Batucada dos Nossos Tantãs” é considerada por muitos uma das canções mais representativas do estilo do grupo. Com seu ritmo marcante e letra que celebra a tradição percussiva do samba, a música sintetizou de forma exemplar o projeto estético e cultural do Fundo de Quintal. Era, ao mesmo tempo, uma homenagem e um manifesto.
“E Eu Não Fui Convidado” e “Boca Sem Dente” tornaram-se músicas de referência do pagode dos anos 1980, com aquela combinação de melodia acessível e letra bem-humorada que o grupo dominava com maestria. Já “Enredo do Meu Samba” e “Só Pra Contrariar” firmaram o Fundo de Quintal como compositores e intérpretes de primeira grandeza, capazes de transitar entre o lírico e o festivo com igual competência.
“Miudinho, Meu Bem, Miudinho”, do álbum “Ciranda do Povo” de 1989, com composição de Franco e Arlindo Cruz, tornou-se um hino do pagode de fim de década. A música capturava com perfeição o ambiente das rodas de samba, com seu convite ao dança e sua leveza contagiante. Foi uma das composições que mais colaboraram para aproximar o pagode das novas gerações de ouvintes.
“É inevitável afirmar que existiu um samba antes do pagode do Fundo de Quintal e um samba depois. Aquele swing diferenciado moldou tudo que veio depois.”
Análise crítica do legado do grupo
Nos anos 1990, com a chegada do vocalista Mario Sérgio e a produção do álbum “É Aí Que Quebra a Rocha” (1991), o grupo apresentou “Pagodeando”, que se tornaria mais um clássico do repertório. A compilação “Palco Iluminado” (1995), primeiro greatest hits oficial do grupo, ajudou a consolidar o impacto histórico dessas músicas ao agrupá-las numa narrativa discográfica coesa.
As Parcerias que Ampliaram o Alcance
Boa parte das melhores músicas do Fundo de Quintal foi resultado de colaborações com compositores e intérpretes do universo do samba. As parcerias com Luiz Carlos da Vila, compositor de raro talento poético, produziram letras que elevaram o pagode a um patamar literário incomum para o gênero. Beto sem Braço e Nei Lopes também foram parceiros frequentes, contribuindo com composições que o grupo gravou e tornou populares.
A relação com Zeca Pagodinho, que passou pelo grupo antes de seguir carreira solo, também gerou frutos musicais importantes. Zeca participou de gravações ao vivo e de projetos especiais do Fundo de Quintal, numa troca afetiva que refletia a circularidade do universo musical do Cacique de Ramos. O DVD gravado no Olimpo em 2004 reuniu, em um único palco, boa parte dos nomes que haviam passado pelo grupo ou que com ele tinham laços musicais: Jorge Aragão, Alcione, Leci Brandão, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Dona Ivone Lara, Dudu Nobre e Beth Carvalho.
Fundo de Quintal as Melhores: Premiações, Impacto Cultural e Reconhecimento

O reconhecimento formal do Grupo Fundo de Quintal pela indústria musical brasileira foi consistente e significativo. O grupo recebeu o Prêmio Sharp de Música, uma das mais importantes premiações da música brasileira nas décadas de 1980 e 1990, nove vezes, sendo sete delas consecutivas na categoria “Melhor Grupo de Samba”. O número fala por si mesmo: nenhum outro grupo do gênero alcançou tal constância de reconhecimento crítico e popular.
Os 40 Anos no Circo Voador: Uma Celebração da Memória
Em 2020, o Grupo Fundo de Quintal completou 40 anos de existência. Para celebrar a data, o grupo realizou um show histórico no Circo Voador, casa de espetáculos no coração da Lapa, Rio de Janeiro, que foi registrado no álbum ao vivo “Fundo de Quintal no Circo Voador, 40 Anos”. O evento reuniu gerações de fãs e confirmou a vitalidade de um grupo que, passados quatro décadas, ainda mantinha uma relação viva e emocional com seu público.
Naquele show, a formação contemporânea do grupo, com Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Ademir Batera e Ronaldinho, demonstrou que o Fundo de Quintal havia se transformado numa instituição cultural do samba, com legitimidade histórica e musicalidade intacta. A celebração foi também um ato de memória coletiva, homenageando os que partiram, como Almir Guineto (falecido em 2017) e Ubirany (falecido em 2020), cujas contribuições permaneceram presentes em cada nota executada.
A Tamarineira e a Memória Afetiva de Ramos
Um dos elementos mais evocados pelos integrantes e pelos admiradores do Grupo Fundo de Quintal é a chamada “tamarineira do Cacique de Ramos”, uma árvore de tamarindo que ficou famosa por ser o ponto de encontro dos sambistas nas noites em que as rodas de pagode se estendiam pelo quintal da sede do bloco. A imagem da tamarineira tornou-se um símbolo quase mítico da origem do movimento, uma metonímia do próprio grupo: enraizada, frutífera e resistente.
No DVD de 2004, filmado com material de arquivo das décadas anteriores, cenas daquela época foram incluídas como homenagem e como prova visual de que o pagode havia sido gestado naquele espaço específico, naquelas noites específicas, por aquelas pessoas específicas. A memória do Cacique de Ramos é, até hoje, parte indissociável da biografia do Grupo Fundo de Quintal.
O Legado Vivo: Influência, Gerações e a Permanência do Quintal
O impacto do Grupo Fundo de Quintal na música brasileira transcende as fronteiras do gênero. Todos os grandes nomes do pagode dos anos 1980, 1990 e 2000 passaram, de forma direta ou indireta, pelo universo sonoro inaugurado pelo grupo. Zeca Pagodinho, que integrou o Fundo de Quintal antes de seguir carreira solo, construiu uma das trajetórias mais celebradas do samba brasileiro com base nos alicerces musicais do pagode de Ramos. Arlindo Cruz, outro ex-integrante, tornou-se um dos compositores e intérpretes mais respeitados da geração contemporânea do samba.
Jorge Aragão, presente na formação original, desenvolveu uma carreira solo reconhecida com composições poéticas e densas que dialogam com a tradição do samba de raiz. Almir Guineto, antes de seu falecimento em 2017, consolidou-se como uma referência incontornável do banjo no samba brasileiro. Cada trajetória individual carrega, em alguma medida, o DNA musical gestado nas noites de quarta-feira em Ramos.
O Samba como Resistência Cultural
Analisar o Grupo Fundo de Quintal apenas como fenômeno musical seria reduzir seu significado. O grupo emergiu de uma comunidade negra, periférica e criativa, em um período de intensa pressão cultural sobre o samba. Sua ascensão representou a afirmação de que a periferia do Rio de Janeiro não era apenas consumidora de cultura, mas sua produtora mais potente e inovadora.
A socióloga Hermano Vianna, em seu estudo sobre o pagode e a identidade brasileira, aponta que a trajetória do Fundo de Quintal ilustra com precisão como a inovação cultural no Brasil frequentemente parte das margens para o centro, do subúrbio para a mídia, do quintal para o palco nacional. O grupo foi um vetor dessa dinâmica, carregando consigo os valores comunitários, a memória africana e a potência criativa de uma tradição que recusou o esquecimento.
A Biografia que Eternizou a História

Em 2022, o jornalista Marcos Salles lançou pela Editora Malê o livro “Fundo de Quintal, O Som que Mudou a História do Samba”, biografia oficial do grupo aprovada por unanimidade pelos integrantes. Com 448 páginas, fotos históricas e baseado em 161 entrevistas realizadas ao longo de quase quatro anos de pesquisa, incluindo 116 horas de gravações, o livro é o mais completo registro da história do grupo até hoje.
Salles, que acompanhava o Fundo de Quintal desde 1984, reuniu depoimentos de figuras como Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Elza Soares, Nei Lopes, Leci Brandão, Anderson Leonardo e Ricardo Cravo Albin, entre outros. O resultado é um documento cultural de enorme valor, que registra não apenas a história do grupo, mas a história de uma época, de um bairro, de uma geração de sambistas que mudou o Brasil sem nunca sair do quintal de onde vieram.
O Quintal que Virou Mundo: Permanência e Significado
Quando se ouve hoje, em qualquer roda de samba do Brasil, o timbre particular de um banjo afinado como cavaquinho, o grave suave de um tantã ou a percussão delicada de um repique de mão, está-se ouvindo o eco vivo de um quintal em Ramos. Está-se ouvindo o Grupo Fundo de Quintal, mesmo que ninguém ao redor seja capaz de nomear a origem daqueles sons.
Esse é, talvez, o maior legado de um grupo que nunca precisou de grandiosas declarações de intenção. O Fundo de Quintal simplesmente tocou, e tocou tão bem, tão verdadeiramente e tão inovadoramente, que o Brasil inteiro terminou por aprender a linguagem que eles haviam inventado nas noites de quarta-feira da sede do Cacique de Ramos.
A história do Grupo Fundo de Quintal é, em última instância, a história do samba brasileiro como processo vivo, dinâmico e comunitário. É a demonstração de que a cultura popular não é apenas patrimônio a ser preservado, mas força a ser continuamente criada e recriada por aqueles que a vivem de dentro, com autenticidade, afeto e coragem. O quintal de Ramos foi pequeno. O som que brotou dele, imenso.
Referências
- ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Fundo de Quintal. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupos/81575-fundo-de-quintal. Acesso em: 2025.
- DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Fundo de Quintal. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/grupo/fundo-de-quintal. Acesso em: 2025.
- SALLES, Marcos. Fundo de Quintal: O Som que Mudou a História do Samba. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2022. 448 p.
- ESTADO DE MINAS. Livro mostra por que o Fundo de Quintal mudou a história do samba. 15 jan. 2023. Disponível em: https://www.em.com.br. Acesso em: 2025.
- APPLE MUSIC. Fundo de Quintal, história e discografia. Disponível em: https://music.apple.com/br/artist/fundo-de-quintal/253079488. Acesso em: 2025.
- CEM POR CENTO SAMBA. Grupo Fundo de Quintal. Disponível em: https://cemporcentosamba.com.br/grupo-fundo-de-quintal. Acesso em: 2025.
- DOM PRODUÇÕES E EVENTOS. A História do Grupo Fundo de Quintal. Jun. 2022. Disponível em: https://domproducoeseeventos.com. Acesso em: 2025.
- WIKIPEDIA (EN). Fundo de Quintal. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Fundo_de_Quintal. Acesso em: 2025.
- WIKI PAGODE FANDOM. Fundo de Quintal. Disponível em: https://pagodemania.fandom.com/pt/wiki/Fundo_de_Quintal. Acesso em: 2025.
- TERRA / CENTRAL SONORA. Top 5 Sucessos do Fundo de Quintal. Ago. 2023. Disponível em: https://www.terra.com.br. Acesso em: 2025.







